segunda-feira, 24 de agosto de 2009

"QUANDO ERA MAIS NOVO"

"QUANDO ERA MAIS NOVO, DANÇAVA A POLCA COM A MORTE. Era bombeiro e tocava clarinete na Banda, mas o que eu mais fazia era oferecer-me para transportar o caixão aos ombros sempre que algum associado nosso falecia. Fiz isto vezes sem conto, até que comecei a notar o cheiro dos cemitérios. Um cheiro atordoante que me fez desistir. Dei por terminada essa dança porque, afinal, a morte tem cheiro. Um cheiro insuportável.

Ninguém em minha casa fala da morte, mas todos vivemos debaixo do seu espectro. Antes de eu nascer, a minha irmã, Ana Paula, de 7 anos, faleceu num acidente de automóvel. Ao volante ia o meu tio, Fernando José, que também morreu. Sobreviveram o meu avô e a minha mãe. Sobre o caso, pouco mais sei, porque em casa não se fala disso.

Quando eu nasci, porque sou homem, fiquei com o nome do meu tio. A seguir nasceu outra irmã minha. Queriam pôr-lhe o nome de Ana Paula, mas fui eu que não deixei: gostava da minha prima Margarida, e ela ficou Ana Margarida. Sem me dar conta, dei-lhe alguma liberdade. A propósito, a Margarida é filha do meu falecido tio. Ele tinha casado oito dias antes do acidente. A mulher já estava grávida, e assim nasceu a Margarida. Mãe e filha foram viver para a montanha. Gosto muito delas, mas temos pouca convivência. Quando estou com elas aperta-se-me a garganta e não conseguimos falar. Acho que todos pensamos no mesmo, mas ficamos pelo silêncio. Existe um tabu que mais adensa o mistério do falecido. Falar do meu tio, só o faço com uma das irmãs dele que vivia em África por altura do acidente. É a minha melhor amiga, e longas noites passámos a viver a memória do nosso herói.

Fiquei por ela a saber que o meu tio, de quem herdei o nome, era o único licenciado na família. Era Engenheiro e grande apaixonado pelos automóveis, então em expansão. Partilhava essa paixão com o seu pai, meu avô, de quem era o filho querido. Gostava das coisas boas da vida e adorava as velocidades. No dia fatídico, ele e o meu avô tinham inventado uma afinação especial do carro para correr mais veloz. Foi, de facto, tão veloz, que na primeira curva levantou voo. O meu tio e a minha irmã serviram de trem de aterragem.

Como vêem, por mim, até faço graça com o tema. É um privilégio que eu tenho porque, no fim de contas, nunca cheguei a conhecê-los. E, em boa verdade, estou mais interessado nessa personalidade fascinante que era o meu tio, de quem herdei o nome. E não foi só o nome. Estou a acabar Engenharia e em breve serei, de novo, o único licenciado da família. Tal como o meu tio, sou apaixonado por automóveis. Tal como ele, sou bastante popular e não me custa fazer amizades. Ele fazia de tudo. Liderava um clube desportivo, treinava as equipas, transportava-as de terra em terra. Eu também fiz muita coisa na minha juventude, agora estou um pouco mais sossegado. Tenho uma namorada mais ao menos certa mas, tanto quanto saiba, ainda não fiz nenhum filho.

Estou a chegar aos 27 anos, que era a idade do meu tio quando morreu. Fujo de pensar nisso, só não sei se os meus pais, no seu inexprimível pensamento, também o pensam. Às vezes, pelo olhar, parece-me que sim. Então assusto-me e dou por mim a protelar o meu destino: está a custar-me acabar o curso, sobre filhos, todo o cuidado é pouco, evito casar-me, não ando pelas estradas a transportar gente. Vou dormindo... Só que nos sonhos aparecem crianças aos gritos, despistes, latas amolgadas, cemitérios, às vezes um grande vazio a terminar uma sinfonia que mal se iniciou.

Não acredito no destino, mas parece-me estar a ser vitima dele. Foi por causa do nome que me deram para que o tempo voltasse atrás? Foi por causa da dor silenciosa dos meus pais? Não teria sido mais simples se me contassem toda a história? Estou hoje a contá-la e, com aquilo que conto, sinto-me liberto. Posso até ficcionar, contar uma história diferente, ou mesmo várias histórias sem que se possa saber qual é a verdadeira. Parece-me que, assim, posso ser senhor de mim próprio e escolher o meu destino. As palavras que eu organizo e reorganizo podem mudar-me, e permitem que eu, ao escolhê-las, me escolha a mim próprio.

Mas devo reconhecer que existem linguagens mais poderosas que as palavras. Sobretudo se nos são transmitidas por dores, desejos, expectativas ou mesmo receios bem sentidos pelos outros mas que não conseguimos decifrar na totalidade nem as conseguimos reproduzir. Foi assim comigo até agora. Mas hoje, dono destas palavras, a bola do destino passa para as minhas mãos. Sou eu que a vou jogar."

J.L. Pio Abreu

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